História da Educação I: A Origem das Escolas

Quais foram as primeiras escolas? Como elas eram? O que era ensinado? Porque o que era ensinado era ensinado? Para responder a estas perguntas o convidamos para uma breve viagem no tempo que se inicia com o principal marco do desenvolvimento intelectual da humanidade: a origem da escrita.

Estudos apontam que a escrita se desenvolveu na Suméria, na região da Mesopotâmia, entre os rios Tigres e Eufrates, por volta de 3000 a.C. Mas o que sabemos mesmo é que a escrita se difundiu nas chamadas sociedades hidráulicas, que são os povos que se estabeleceram nas margens dos principais rios da Ásia, Oriente Médio e África, desde o extremo oriente (China e Índia) até a crescente fértil (Suméria, Assíria, Levante e Egito).

Todas eram sociedades agrícolas organizadas por meio da religião. A as técnicas de construção de vasos, tecidos, tijolos, utensílios, armas e objetos artísticos, eram ensinadas e produzidas em oficinas práticas. Já a escrita, a oratória, a ciência, a geometria, a matemática, a medicina e a religião eram ensinadas nos templos pelos sacerdotes.

Temos originalmente duas instituições de ensino, as oficinas e os templos, a primeira como uma escola de saberes práticos e utilitários e a segunda uma escola de saberes teoréticos, ligados à religião e ao primado literário, não pragmáticos e desinteressados, por isso liberais. Observamos que tais primeiras “escolas” refletem uma divisão dúplice de saberes, cultura e trabalho: a escola profissional e a escola liberal.

Na Índia, China, Mesopotâmia e Egito, todo o saber (religioso e técnico) era ministrado no templo, pelos sacerdotes. O primeiro instrumento do sacerdote-intelectual era a escrita e por isso a cultura literária e discursiva era o cerne da educação intelectual (liberal). Aos guerreiros era reservado o ensino da ginástica e da música. Porém, a maior parte da população era instruída em oficinas artesanais através de um ensino prático passado de pais para filhos.

Philae, Egypt (Edward Lear)

Estas primeiras escolas que funcionavam nos templos, estavam ligadas essencialmente à linguagem oral e escrita e surgiram pela diferenciação das oficinas sendo uma transmissão de saberes discursivos e não de práticas. Podemos constatar, então, que a origem da escola em todos estes povos está ligada a presença de três elementos essenciais: religião, escrita e divisão do trabalho.

Na região do Levante, nas margens do Jordão, houveram diversos assentamentos semíticos (descendentes de Sem, um dos filhos de Noé) que constituíram estados de pequenas dimensões, em comparação ao Egito, Mesopotâmia, Índia e China, eram substancialmente autônomos, regidos por monarquias hereditárias, em constantes conflitos entre si, viviam da agricultura e do comércio. Por conta do comércio, das necessidades de simplificação e comunicação mais rápida e eficiente, esta região se aprimorou nos cálculos matemáticos e na escrita. Daí surgiu o primeiro alfabeto, com 22 consoantes (sem vogais), do qual derivaram o alfabeto grego e os demais europeus. O primeiro alfabeto se desenvolve em Biblos na Fenícia e por conta dos papiros serem fabricados na região, os livros receberam o nome de biblos pelos gregos[1].

Nesta região três das culturas orais: o bardo, o profeta e o sábio. Eles foram os primeiros educadores populares, transmitindo os saberes pela via oral, preservando a memória histórica pela oratória, pela música e pela poesia.

Moisés e os Mandamentos (Philippe de Champaigne)

Na época os hebreus eram um povo nômade que vivia do pastoreio e professava uma religião bem diferente daquela dos seus vizinhos: eram monoteístas, concebiam Deus como um espírito transcendente, irrepresentável e inominável, o “Deus desconhecido”, “aquele que apenas é”, um Deus que fez um pacto com seu povo, revelou para eles a origem do mundo, as Leis Divinas, enviou diversos profetas para os assistirem em suas provações e esperam um Libertador, um Messias, um guia.

Neste texto não cabe entrarmos na longa e complexa história dos judeus, mas ressaltar que o profetismo foi o traço pedagógico mais marcante deste povo. Os profetas, inspirados e enviados por Deus, são os educadores de Israel. A escola em Israel era organizada pela interpretação da Lei dentro das sinagogas, onde havia uma escola de exegese anexa. A sinagoga, além do local para o culto religioso, era também o da instrução. Uma instrução voltada para a “palavra” e para os “costumes”, só bem mais tarde por volta do século I d.C. foram incluídos o ensino da escrita e da aritmética nas sinagogas. Fílon de Alexandria, o Judeu (25 a.C. – 50 d.C.) propôs a integração do judaísmo com o platonismo, valorizou as artes liberais como instrumentos de virtudes, devendo ser aprendidas desde criança como estudos preliminares para a aquisição madura da “sapiência”, também chamada de a “luz arquetípica”[1].

Além do ensino da escrita, as artes liberais foram fundamentais para o surgimento das primeiras escolas. Porém,  pouco se tem certeza da origem destes conhecimentos , como vimos no artigo A Origem das Artes Liberais. Há diversas lendas de que tais conhecimentos vieram de civilizações antigas e destruídas, como Atlântida, ou de seres extraterrestres, ou mesmo de alguma figura mítica como o egípcio Toth, o Hermes, ou mesmo Zoroastro na Pérsia. Dentre estas figuras lendárias está também o Rei Salomão, que teria ensinado uma série de conhecimentos, ciência e tecnologia, tanto aplicada à própria construção do templo, quanto ensinada a outros povos. Consta que Salomão não deixou este conhecimento restrito aos judeus, ele o distribuiu entre os povos de acordo com a vocação de cada um, como, por exemplo, os implementos na tecnologia da navegação aos fenícios. Como mencionamos no artigo A Origem das Artes Liberais, a universidade lendária mais antiga seria a que funcionou no templo de Salomão onde, segundo relatos exotéricos, eram ensinadas disciplinas como matemática, geometria, música, astronomia, gramática, lógica e oratória.

A Rainha de Sheba em Jerusalém (Salomon de Bray)

Hoje, quando pesquisamos a origem destas mais antigas ciências ou disciplinas mencionadas acima, os registros detalhados mais antigos que encontramos são de aproximadamente 300 a 400 anos depois de Salomão, o chamado período clássico grego. Neste período de aproximadamente 600 a.C. a 400 a.C., bem como antes deste período, segundos os relatos da época, estes conhecimentos eram transmitidos em escolas que ensinavam para adultos, estas escolas eram como “escolas de mistério”, que além de ensinar matemática, geometria, música, astronomia, gramática, lógica e oratória, também ensinavam orientações morais e espirituais, e as próprias ciências ensinadas continham uma dimensão profunda, simbólica e espiritual. Estas escolas , ou primeiras universidades , existiam distribuídas pela região dos rios Tigres, Eufrates, Nilo e Indo, compreendendo, por exemplo, Pérsia, Babilônia, Caldéia, Índia, Egito e Grécia. Importante levar em consideração que haviam trocas mútuas entres estas escolas, não era incomum os sábios viajarem para estudar em diversas escolas.

A Grécia e a Jônia, onde oriente e ocidente se encontravam, era um local de passagem e constante troca entre culturas. Neste caldeirão cultural houveram homens que se destacaram por seu conhecimento e sabedoria, fundaram escolas de mistérios, e transmitiram um conjunto de ensinamentos que tinham em comum uma forma diferenciada de racionalidade, assim como um conjunto de leis morais, constituindo a infraestrutura da cultura ocidental e o produto mais alto da civilização clássica. Por conta da presença destas personalidades tão fortes como Pitágoras e Sócrates, seus discípulos fundaram escolas e nos legaram um conjunto de conhecimentos escritos sobre diversas áreas do conhecimento:  a gramática, oratória, lógica, aritmética, geometria, música e astronomia. Por tudo isso muitos autores consideram a Grécia como o ápice do desenvolvimento cultural da antiguidade e reconhecem como o berço da própria razão humana, do Logos, da Filosofia e da Ciência.

A Acrópole de Atenas (Leo von Klenze)

Dentre estas antigas escolas gregas se destacam a Academia de Platão, fundada em 484 a.C., e o Liceu de Aristóteles, fundado em 335 a.C. Elas duraram quase 1000 anos, quando em 529 d.C., o Imperador bizantino Justiniano decretou o fim de ambas, acreditando com isso extirpar os últimos resquícios do paganismo. Após muitas guerras e incêndios, foram destas duas escolas que se preservaram os textos que seriam traduzidos do grego para o latim por diversos autores, dos quais se destacam Cícero, Agostinho e Boécio, e, mais na frente, no século XII, traduzidos do latim para o árabe, por Avicena.

Durante o período do Império Romano, as crianças e jovens aprendiam em casa, e os mais abastados contratavam eruditos como tutores de seus filhos ou apadrinhados. Ao longo da história, os grandes impérios favoreceram o florescimento da ciência e das artes, por proporcionarem, pela força das armas, a tranquilidade necessária ao desenvolvimento da cultura. Durante este período, houveram importantes contribuições à ciência grega, com Cícero e Quintiliano na oratória, Donato e Prisciano com as primeiras gramáticas latinas e na matemática e astronomia com Ptolomeu. Já na decadência do império romano se destacaram dois cristãos, o primeiro foi Agostinho de Hipona, que incorporou a filosofia de Platão ao cristianismo, destacou as sete artes liberais, que foram divulgadas pelos belos desenhos de Marciano Capella. O segundo, Boécio, considerado o último romano e o primeiro escolástico, traduziu as obras de lógica e dialética de Aristóteles, escreveu um livro didático para cada uma das artes liberais, organizou o currículo e a didática de todas estas disciplinas com base na integração harmônica da filosofia de Platão e Aristóteles, compondo um todo orgânico, o Trivium, as três artes ligadas à palavra, e o Quadrivium, as quatro artes ligadas ao número.

Com a queda do império romano, veio um período de desorganização da sociedade, que durou cerca de 300 anos, chamado dark age. Contudo, a idade das trevas, ao contrário do que muitos acreditam, não abrange todo o período medieval, mas só o período entre a queda do império romano e a alta idade média, iniciada na dinastia carolíngia. Neste período de doenças, guerras e ausência das instituições sociais, os antigos conhecimentos dos gregos, traduzidos e desenvolvidos pelos romanos,  ficaram preservados nas bibliotecas de mosteiros, em sua grande parte pelos monges beneditinos no ocidente, e no oriente pelos árabes[2].

O mesmo período que foi de decadência para aquela região da Europa antes dominada pelos romanos, foi de crescimento e florescimento cultural para a cultura árabe, já sob a bandeira do islamismo. Os árabes também traduziram as obras de Platão, Aristóteles, Euclides e muitos outros gregos, bem como as obras em latim dos romanos. Ainda tiveram contato com os hindus e os judeus, e desta integração se originou o nosso sistema decimal, o zero e outros desenvolvimentos nas artes liberais, inicialmente aprendidas com os gregos.

O conhecimento e desenvolvimento das artes liberais chegaram na Europa pelos árabes através da invasão da península ibérica (Espanha) no século VIII, quando a cidade de Córdoba se tornou centro de referência em artes, ciências, literatura, tradução, poesia e música, atraindo muitos estudantes de toda a Europa. Os árabes também mantiveram o intercâmbio com reinos europeus, como o caso da amizade de Harune Al-Raschid (766-809 d.C.) com Carlos Magno[2].

Carlos Magno e a Escola Palatina (Jan Verhas)

No século VI, O Rei Clóvis I uniu as diversas tribos francas sob um único governante, alterando a forma de liderança de um grupo de chefes tribais para um governo de um único rei e assegurando que o reinado fosse transmitido para seus herdeiros, inaugurando a primeira monarquia feudal, sendo o primeiro rei franco, considerado o fundador da França e também o primeiro rei convertido ao cristianismo após a queda do império romano, por influência de sua esposa Clotilde. No reinado de Clóvis I foi criada no palácio uma escola onde as crianças aprendiam a ler, a contar e a conhecer as sagradas escrituras. No século VIII, com a constituição do reinado de Carlos Magno, o processo de organização do estado, da economia, das instituições e da lei foi elevado a um outro patamar, sem precedentes na idade média[2].

Como vimos em Carlos Magno e os Pilares da Civilização Ocidental, o Imperador se cercou de notáveis, sábios, professores, filósofos e poetas, que vieram dos maiores centros intelectuais da Europa de então: Espanha, Itália e Inglaterra. Dentre estes homens de conhecimento o que mais se destacou foi o monge inglês Alcuíno de York que, a pedido de Carlos Magno, foi seu professor, além de diretor da escola do palácio e diretor de toda educação do reinado.

Imperador Carlos Magno e Alcuíno de York (Jan Verhas)

Naquela época, as crianças já recebiam as primeiras letras e eram ensinadas a contar por suas famílias, não sendo incomum também serem ensinadas nas igrejas e paróquias. Ali eram ensinadas as primeiras letras, alfabetização, as quatro operações e o sistema de medidas da época. Com Alcuíno foi criada a escola secundária, que recebia as crianças que já sabia ler e contar, para aprenderem não só as escrituras, como na época de Clóvis I, mas também as sete artes liberais gregas. Alcuíno mandou trazer muitos livros da biblioteca de York, e trouxe para aquele reino recém cristianizado, o mais sólido conhecimento científico, literário e filosófico de então, a ciência dos gregos reunidas por Agostinho e Boécio no Trivium e Quadrivium.

Alcuíno defendeu a integração da cultura pagã grega com o cristianismo e desta integração nasceram oficialmente as primeiras escolas secundárias. Pela primeira vez foi decretada uma lei que instituía a criação de escolas nas cortes dos palácios, nas catedrais e nos monastérios. Diferente do que encontramos em alguns livros e artigos, onde se diz que as primeiras escolas semelhantes às de hoje datariam do século XII [3], bastaria para esclarecer a questão, a leitura das cartas do próprio Alcuíno, ou das capitulares de Carlos Magno, dentre as quais ele instituiu as escolas, ou mesmo o histórico relato de Walafrido Strabo, aluno de uma escola monástica do século IX, que conta seus anos escolares em detalhes [4].

Sim, a escola de Walafrido já tinha professores, salas, currículo, diversas disciplinas e era frequentada por crianças a partir de 9 anos (no caso do próprio Walafrido) e jovens até uns 17 anos, dependendo da vocação e área de estudo escolhida. Inclusive havia decreto real, regulamentação estatal e coordenação central realizada pelo próprio Alcuíno de York.

A educação infantil era feita na família até o advento da modernidade. O ensino das primeiras letras e das quatro operações, equivalente ao primário era realizado nas famílias, nas paróquias e no palácio do Rei Clóvis I, no século VI. No século VIII surge o ensino secundário com a primeira escola no palácio de Aquisgrão, Aachen (em alemão) ou Aix-la-chapelle (em francês), seguido do decreto que previa a criação de escolas nas cortes (escolas palatinas ou palacianas), nos monastérios (escolas monacais) e nas catedrais (escolas catedrais).


[1] CAMBI, Franco. História da Pedagogia. UNESP, São Paulo, 1999.
[2] FAVIER, Jean. Carlos Magno. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.
[3] FUJITA, Luiz. Qual a primeira escola? In: Super Interessante. Publicado em 31 de julho de 2008. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-foi-a-primeira-escola/.
[4] Documenta Catholica Omnia. In:  http://www.documentacatholicaomnia.eu/.

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2 respostas

  1. Ótimo texto, mas como estamos falando de educação, e aqui não vi e-mail para passar particularmente o apontamento, sugiro uma revisão de português no texto.
    Varias frases ao longo do texto com o verbo haver, no sentido de existir no plural.
    Esse verbo não flexiona.
    ????
    Abraços e obrigada por estudo tão minucioso de história!!
    Parabéns!

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